quarta-feira, 27 de maio de 2015

Oito passagens de Anton Tchekhov no conto Enfermaria № 6

Anton Tchekhov (foto daqui)


"O pensamento livre e profundo, que procura compreender racionalmente a vida, e um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo - eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu."


"Não existe sobre a Terra nada de bom que não tenha na sua origem alguma vilania."


"Por mais esplêndida que seja a aurora que ilumine a sua vida, apesar de tudo, no final, será encerrado num caixão e atirado numa fossa."


"(...) um juiz, para destituir um homem inocente de todos os direitos civis e condená-lo aos trabalhos forçados, só precisa do seguinte: tempo. Apenas tempo para a execução de umas poucas formalidades, pelas quais o juiz recebe um ordenado, e a seguir tudo acaba (...) não será ridículo cogitar de justiça, quando toda violência é recebida pela sociedade como uma necessidade razoável e oportuna, e quando todo ato de piedade, por exemplo, uma sentença absolutória, provoca uma verdadeira explosão do sentimento de vingança insatisfeito?"


"'Quem de nós é louco?', pensava com mágoa. 'Eu, que procuro não incomodar com nada os passageiros, ou este egoísta, que pensa ser o mais inteligente e interessante de todos aqui, e que por isso não dá sossego a ninguém?'"


Anton Tchekhov (foto daqui)


"(...) a vida na cidade era abafada, enfadonha, a sociedade ali não possuía interesses superiores e levava uma vida apagada, sem sentido, diversificando-a com a coação sobre os mais fracos, uma devassidão rude e a hipocrisia, os calhordas estavam vestidos e alimentados, enquanto as pessoas honestas alimentavam-se de migalhas; eram necessários escolas, um jornal local com orientação honesta, um teatro, leituras públicas, uma união das forças intelectuais; era preciso que a sociedade tomasse conhecimento de si mesma e ficasse horrorizada."


"A doutrina que prega indiferença à riqueza, às comodidades da vida, o desprezo pelos sofrimentos e pela morte, é de todo incompreensível para a imensa maioria, pois essa jamais conheceu a riqueza nem aquelas comodidades; e desprezar os sofrimentos significaria para ela desprezar a própria vida, pois toda a essência da vida humana consiste em sensações de fome, frio, ofensas, privações e um medo hamletiano da morte."


"Quando a sociedade se isola dos criminosos, dos doentes psíquicos e da gente incômoda em geral, ela é inflexível (...) Se existem prisões e manicômios, alguém deve ficar neles. Se não for o senhor, serei eu, se não eu, algum terceiro. Espere, quando, num futuro distante, tiverem terminado sua existência as prisões e os manicômios, não existirão grades nas janelas, nem roupões de internados. Está claro que essa época chegará cedo ou tarde (...) Ivan Dmítritch teve um sorriso de mofa."




Trecho do conto Enfermaria № 6, presente no volume 
As três irmãs (Nova Cultural/1995), páginas 253, 242, 253, 236-237, 264, 235, 257 e 252, respectivamente, que traz o livro de contos O beijo e outras histórias, com a tradução de
Boris Schnaiderman.


terça-feira, 26 de maio de 2015

Tchekhov e o teatro do entretenimento

Anton Tchekhov (foto daqui)


"Pode-se convencer a multidão sentimental e confiante de que o teatro, em sua forma atual, é uma escola. Mas não se pode fisgar com esse anzol aquele que conhece a escola em seu sentido autêntico. Não sei o que será daqui a cinquenta ou cem anos, mas nas condições atuais o teatro só pode servir de divertimento. Todavia, esse prazer é demasiado caro para que se continue a aproveitá-lo. Ele tira ao país milhares de homens e mulheres jovens, sadios e talentosos, que, se não se devotassem ao teatro, poderiam ser bons médicos, plantadores de trigo, professoras, oficiais do Exército; ele tira do público as horas do anoitecer, as melhores para o trabalho intelectual e as conversas amigas. Isso não se falando nos gastos em dinheiro e nos prejuízos morais que sofre o espectador, quando vê no palco o assassínio, o adultério ou a calúnia, tratados impropriadamente."





Trecho do conto Uma história enfadonha, presente no volume As três irmãs (Nova Cultural/1995), página 197,
que traz o livro de contos O beijo e outras histórias,
com a tradução de Boris Schnaiderman.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Quatro passagens de Anton Tchekhov no conto Uma história enfadonha

Anton Tchekhov (foto daqui)


"(...) se um jovem cientista ou literato inicia a sua atividade queixando-se amargamente de outros cientistas ou literatos, isso quer dizer que ele já se extenuou e não serve para o trabalho."


"Quando amanhece, estou sentado na cama, abraçando os joelhos, e, não tendo o que fazer, procuro conhecer a mim mesmo. 'Conhece-te a ti mesmo' - eis um belo e útil conselho; dá pena, porém, que os antigos não tenham adivinhado como indicar o meio de utilizá-lo."


"Eis os traços que diferenciam um cavalo de carga de um homem de talento: o seu campo visual é acanhado, limitado abruptamente pela especialização; fora da especialidade, ele é ingênuo como uma criança."


"Não consigo expressar para o senhor a amargura que sinto, vendo a arte que amo tanto nas mãos de gente que odeio; é triste que os homens melhores somente vejam o mal de longe, não queiram aproximar-se e, em lugar de entrar na luta, escrevam num estilo pesado lugares-comuns e preguem uma moral de que ninguém precisa..."





Presente no volume As três irmãs (Nova Cultural/1995), páginas 198, 227-228, 188 e 199, respectivamente, que traz o livro de contos O beijo e outras histórias, com a tradução de
Boris Schnaiderman.