segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Hoje fomos eternos

What dreams may come interferido por Mirdad


2011 - Uma odisseia de um domingo só
Emmanuel Mirdad

Guerra, ignorância, poluição e fome
Mas o homem não consegue parar o mundo
Terremotos, tsunamis, tempestades, seca extrema
E nem a Terra consegue parar o mundo, quiçá a si própria
Nunca houve um freio após o gênese, nos confins da origem

Entretanto,
Subestimado como micro ao calendário insípido dos astros,
Hoje, um domingo de março, ousado e desprendido, foi
O dia em que a Terra parou

Malucos não somos, e não foi um sonho, seu Raulzito
Saímos de casa, confrontamos a tempestade
E o nosso oásis maktubou-se materializado

O amor freou o mundo, e confundiu o tempo,
Que não soube mais o que contar e mensurar
Quando a força do incrível gigante brecou a rotação do planeta
Só pra que os nossos braços pudessem rodopiar
As sensações dos deuses
Abraçados como ficamos,
Reconhecendo o ninho em que as galáxias são gestadas
Hoje fomos eternos

Seis passagens de Georgio Rios no livro de minicontos Ficções ao mar

Georgio Rios (foto: Divulgação)


"Desenterrou do quintal a lata de leite recheada de gudes. Depois de muitos anos lembrou-se de tê-las enterrado naquele lugar. Despejou o conteúdo vítreo no chão da sala e, ao ver rolar cada esfera, lembrou-se do universo. Lembrou-se que cada pequenina gude daquelas era a seu modo um pequeno planeta em que habitavam muitas histórias da galáxia distante que foi sua infância, derramada de dentro daquela enferrujada lata de leite."


"(...) Sulamita era mulher de pedra. Uma rocha que viu o marido e os quatro filhos descerem ao pó da terra. Tudo sem choro. Na secura das terras que enterrou o seu umbigo. Viu as poucas vacas morrerem, os bodes desembestarem na caatinga seca. Nem uma lágrima (...) E agora, depois de noventa anos sem sair do chão onde nasceu, cismou que queria ver o mar. Logo ela, tão acostumada com tamanha secura (...) Seguiu que nem menina. Forte, livre... Desembestada nas águas salobras. Molhou as mãos, a cabeça, e deixou cair o que pareceu ser as duas lágrimas que verteu na vida."


"Uma dose de esperança. Tomou tudo num só amargo gole. Seguiu, sem maiores sentimentos, para a estação de trem ao fim do arruado. Buscava, em vão, a máquina que o levasse aos rincões da tão longínqua e pequena infância. Por fim, resignado, admirava o mar impresso num cartaz na parede cinza da estação, onde um menino e seu cão admiravam o mar infinito no vão da tarde."


"Escondeu as moedas num furo do bloco, cobriu-as com papel e saiu como se não tivesse roubado a mãe."


"Carlos içou a linha, estava pesada, puxando muito. Era um dos grandes, e a briga estava boa. Dez dias depois, já exausto, o pescador resolveu admitir que a história fosse em verdade mais uma fábula de pescador, e a foto que ostentava nas rodas de papo, era arte do seu filho, um menino arretado no tal de photoshop."


"- Mestre? (...) - Mestre! (...) - Mestre. (...) Depois de descer a montanha, o discípulo deixou o casaco de peles de ovelha e seguiu resoluto pelo único caminho."





Presentes no livro de minicontos Ficções ao mar (P55/2012), páginas 46, 10, 41, 17, 27 e 31, respectivamente.

Sete poemas de Marcus Vinícius Rodrigues no livro Arquivos de um corpo em viagem

Marcus Vinícius Rodrigues - Foto: Divulgação


Tudo o que sei

Posso saber do mar distante
pelo barulho longe

e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.

Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto

e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza

pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,

sei o que você não disse
na hora da despedida:

– Somos nossa única certeza.


---------


Saber do corpo

É preciso saber do corpo como nave,
os passos de uma precisa navegação
que mais nos aproxime que afaste
e mova-se sempre mais ao encontro
do seu outro também barco e porto.

É preciso saber do corpo como praça
que alimenta as aves e a multidão
e permite, na marcha, abrir as asas
do caminho que por dentro rasga
os muros que nos dizem não.


---------


Ilhéus

Você me verá ao cais
vazio da cidade onde nasci,

andando sobre o lodo
do mar que esvai.

Também eu parti
rumo à saudade,

esta nova pátria
de onde não posso fugir.


---------


Mar da vida
                           Para Ananda Amaral

Toma a vida
aos goles curtos
que o mar é
todo afogamento.

Toma-os, porém, muitos,
em quantidade reiterada,
até abrir-se dentro
um oceano para cada
amante que te navega,

tantos quantos forem
as vagas de tua alma.

E, depois,
faze-te ao largo, esquece o porto,
abandona-te à saga.


---------


Andar de bicicleta

Meu amor me ensina a andar de bicicleta,
o equilíbrio delicado da aventura.

Ele segura firme e me ampara
quando hesito e ameaço a queda.

O vento no rosto, o chão fugindo sob os pés,
tudo me engole em vertigens.

Quando, cansados, deitamos debaixo das árvores,
as nuvens tortas de nossa festa na relva,

sou eu quem ensina, professor aplicado,
a verdadeira arte: desequilibrar-se.


---------


Além dos delitos

Porque não sei do mar e das vagas
que os dias claros trazem à praia

vivo a adivinhar, dentro da noite,
os ventos úmidos que por sobre

cordilheiras e vales me vêm
contar o mundo que houve,

o estranho mundo em que amores
navegam líquidos movediços

e derivam para além do sabor,
muito além de todos os delitos.


---------


Um corpo em viagem

O corpo, mapa de viajantes perdidos.
O desejo, bússola tresvariada.

Cultivei em mim desencontros
em lavras e lanhas de disciplinas sacras.

Fui fértil de atrasos e enganos,
fui na vida avaria trágica.





Presentes no livro Arquivos de um corpo em viagem (Mondrongo/2015), páginas 36, 50, 13, 28, 41, 27 e 14, respectivamente.