sexta-feira, 25 de julho de 2014

Orange Poem - Primeiras resenhas em jornal e internet

Jornal A Tarde - Caderno Dez - 22/09/2005


Som Laranja

A banda baiana Orange Poem lança amanhã seu primeiro CD, "Shining Life, Confuse World", apostando em rock com cara antiga

Pedro Fernandes

É como se todos estivessem numa festa que se alongou por anos e todos já tivessem feito de tudo. Nada mais choca ninguém. Logo a festa ficou chata, alguns voltam para casa, outros seguem numa dança que já perdeu o sentido. O fazem por puro hábito.

Entre os que voltaram para casa está a banda baiana Orange Poem. Formada por Emmanuel Mirdad [vocais e guitarra], Fábio Vilas-Bôas [guitarra], Marcus "Jesus" Vinícius [guitarra], Fabrício Mota [baixo] e Hosano Júnior [bateria], lança seu primeiro CD, "Shining Life, Confuse World", amanhã, na festa Laranja Rock [ver serviço]

A analogia acima pode parecer estranha, mas será explicada. Hoje, para algo ser bom, hype, cult, [pós] moderno tem que basicamente ser diferente. Pretensamente originais, algumas bandas novas tendem a optar pelo recurso da mistura de sonoridades. Misturar é o verbo que os arautos da pós-modernidade mais conjugam. Tanto que acabou perdendo a graça.

Novo e velho, regional e global, erudito e popular têm sido as misturas mais frequentes que a falta de criatividade de algumas mentes julgam ser a única saída para a arte no começo deste século. Mas há quem não ligue para as tendências, como os caras da Orange Poem. Mistura até que tem, mas nada de vestir o antigo com roupa nova. O som da banda é velho. Só que no bom sentido. Uma espécie de volta para casa.

Início

Em 2000, Emmanuel começou a procurar entre amigos e conhecidos pessoas para formar a banda. "Fábio foi o primeiro. Mostrei para ele o som, se identificou e entrou no projeto." Em março do ano seguinte, a banda estava formada. Gravaram então num espaço de três anos dois CDs demos e um DVD, fizeram shows por Salvador e em novembro de 2004 entraram em estúdio para gravar "Shining Life, Confuse World", sem vínculo com gravadora ou selo. Na época, o baixista era Artur Paranhos, que saiu da banda há pouco mais de um mês.

A produção foi toda bancada pelo vocalista, que também é o produtor executivo do projeto. "As dificuldades enfrentadas foram mais relacionadas à grana do que a problemas técnicos. A gravação foi tranquila, pois Tadeu Mascarenhas [do estúdio Casa das Máquinas] é muito competente". Das 12 músicas do álbum [compostas em inglês], apenas duas foram escritas em parceria. Todas as outras são composições de Emmanuel.

O CD vem acompanhado de outras pretensões. A banda quer viajar para a Europa a partir da metade do ano que vem e tentar uma carreira por lá. Mas contatos para seguir primeiro para São Paulo já apareceram. "Se rolar uma boa proposta, a gente vai."

Distorcido, acústico e doce
[comentário]

"Shining Life, Confuse World" é, como dá para perceber pela formação da banda, guitarreiro até a alma. Acústico, distorcido, ácido, às vezes doce. As referências são escancaradas e, guardando proporções, lembrar do Pink Floyd logo de cara não é tão difícil. E é assim que começa o disco, com "Last Fly". Psicodelia pura, abuso de distorções e delays e a voz grave de Emmanuel quase recitando a letra num clima meio lisérgico.

Há espaço também para referências metaleiras, com "The Green Bee" e "New Help", com mais peso nas guitarras e na bateria. Os vocais ficam à vontade para gritar o quanto a música pedir. Em "Wideness", entra um blues meio deslocado, cantado com sotaque da Transilvânia. Mas é no rock progressivo que o álbum melhor se realiza. Então quando "Rain" chega, a certeza de que a alma da banda está em um som mais viajante se confirma.

Com dois pés no passado e assumindo isso sem esquizofrenias temporais, Orange Poem acaba sendo original por não ceder à tentação de trazer junto com as referências canônicas disfarces modernosos para tornar o som da banda mais palatável, mais dentro de uma tendência que já era. O engraçado é que se você fechar os olhos o som é mesmo laranja.


A primeira resenha na internet feita por Valdir Antonelli 
do site DropMusic em junho de 2006

The Orange Poem
Valdir Antonelli

Formado em 2001, o quarteto lançou duas demos e um DVD-Demo antes de 'arriscar' um álbum cheio e mais bem produzido. Cantam em inglês, visando o mercado externo, mais precisamente o Reino Unido, e planejam embarcar para a Europa em breve, algo que muitas bandas querem, mas poucas realmente conseguem. Finalmente, em novembro de 2004, começam a trabalhar no primeiro disco, produção que só acabou em fevereiro de 2005 e lançam Shining Life, Confuse World em setembro do mesmo ano.

Com 12 canções, Shining Life... só não é uma viagem psicodélica total devido aos vocais guturais de Emmanuel Mirdad - lembrando, quando canta normalmente, vagamente o vocalista Fish ex-Marillion. Vocais que dão um ar teatral que se unem perfeitamente aos arranjos criados pelo grupo. As semelhanças com Pink Floyd, em Last Fly, são bem fortes, mas existem ecos de Jimmy Hendrix, jazz (finalzinho de The Green Bee), rock clássico, blues (principalmente as guitarras em Diet of Dust) e até mesmo do brit pop, este em doses bem pequenas. Em outros momentos chega a soar como uma banda de metal (lembrando Metallica em Wideness).

Em um mercado musical recheado de clones do brit pop, o som feito pelos baianos do Orange Poem causa uma certa estranheza nos primeiros momentos. Ao flertarem com o rock psicodélico, e até mesmo progressivo, dos fim dos anos 60, a banda prova que é possível fazer um trabalho um pouco mais experimental sem soar chato e cansativo e apenas reafirma que a cena independente de Salvador é, hoje em dia, uma das mais criativas do rock nacional.

Álbum: The Orange Poem - Shining Life, Confuse World
Selo: Independente
Ano: 2005
O The Orange Poem é:

Emmanuel Mirdad - Voz
Fábio Vilas-Bôas - Guitarra
Marcus ´Jesus´ Vinícius (Zanomia) - Guitarra
Hosano Júnior - Bateria
"

Link atual aqui

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Pílulas: Parte 02 - A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector

Clarice Lispector (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi"


"É inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados e responder! – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até à indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. Até que se descobre – nem a tua indignidade ele quer. Ele é o silêncio"


"Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que o torna pobre e livre de gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias ... Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha ... Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer"


"Tudo o que dá certo é normal. O estranho é a luta que se é obrigado a travar para obter o que simplesmente seria o normal"


"O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez ... de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se"


"Sou tão misteriosa que não me entendo"


Clarice Lispector
(Rocco - 2008)


"Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. E como toda arte, exige algum conhecimento de si própria. Uso um perfume cujo nome não digo: é meu, sou eu. Duas amigas já me perguntaram o nome, eu disse, elas compraram. E deram-me de volta: simplesmente não eram elas. Não digo o nome também por segredo: é bom perfumar-se em segredo"


"Guimarães Rosa disse que, quando não estava se sentindo bem em matéria de depressão, relia trechos do que já havia escrito ... Ele estava falando com o nosso grupo coisas que eu não entendia e não sei repetir. Então eu disse: adoro ouvir coisas que dão a medida de minha ignorância ... Guimarães Rosa então me disse uma coisa que jamais esquecerei, tão feliz me senti na hora: disse que me lia, "não para a literatura, mas para a vida". Citou de cor frases e frases minhas e eu não reconheci nenhuma"


"Lembro-me com saudade da dor de escrever livros"


"O que me salvaria dessa impressão de fartura – é fartura ou uma liberdade de que está sendo inútil? – seria a raiva ... a raiva simples e violenta. Quanto mais violenta, melhor. Raiva dos que não sabem de nada. Raiva também dos inteligentes do tipo que dizem coisas ... Raiva da afinidade que sinto com algumas pessoas, como se já não houvesse fartura de mim em mim. E raiva do sucesso? O sucesso é uma gafe ... A raiva me tem salvo a vida ... Porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta"


"Escrever para um jornal é uma grande experiência que agora renovo, e ser jornalista, como fui e como sou hoje, é uma grande profissão. O contato com o outro ser através da palavra escrita é uma glória ... Eu amo quem tem paciência de esperar por mim e pela minha voz que sai através da palavra escrita. Sinto-me de repente tão responsável. Porque se sempre eu soube usar a palavra – embora às vezes gaguejando – então sou uma criminosa se não disser, mesmo de um modo sem jeito, o que quereis ouvir de mim"

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Poema de Herculano Neto no EP Balance da Orange Poem

Capa do livro de Herculano Neto e do EP da Orange Poem


A cinematográfica "Child's Knife" é a música que abre o EP Balance, da banda baiana The Orange Poem, que traz em seu final psicodélico um poema em francês, de autoria do escritor baiano Herculano Neto, em tradução de Pedro Vianna. O poema "Les Autres" faz parte do mais novo livro do autor santamarense, "A Casa da Árvore" (Mondrongo/2014), que eu tive o prazer de escrever um trechinho de sua orelha e pilular uns trechos (veja aqui). Conheça-o (e mais abaixo escute-o na faixa do poema laranja):


les autres
Herculano Neto

le septième sceau
le sixième sens
le cinquième élément
le quatrième pouvoir

la troisième vision
la seconde chance
à première vue

le dernier des mohicans

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Original em português:

os outros
Herculano Neto

o sétimo selo
o sexto sentido
o quinto elemento
o quarto poder

a terceira visão
a segunda chance
à primeira vista

o último dos moicanos

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Ouça "Child's Knife" no Soundcloud:




Ouça "Child's Knife" no Youtube:




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Uma livre (e cinematográfica) interpretação minha sobre o poema "Les Autres". Clique nos versos para conhecer os filmes:

les autres
Herculano Neto

le septième sceau
le sixième sens
le cinquième élément
le quatrième pouvoir

la troisième vision
la seconde chance
à première vue

le dernier des mohicans