sexta-feira, 6 de março de 2015

Crônitos #07 - Ingênio


Ingênio

Eu fiz canções que o povo cantou. Outras ajudaram a tevê a construir seu império, cristalizaram os símbolos pretendidos da dramaturgia pasteurizada, exibida à noite, e meu nome caiu na boca do povo. As mais ritmadas receberam gordos investimentos dos meus empresários e a máquina girou, as rádios bombaram e o povo dançou, seja em festas de aniversário, da firma, datas especiais, ou em festas privadas que enriqueceram os mesmos empresários que me contratavam várias vezes durante o ano. E também ajudaram a compor o interminável repertório de tantas bandas operárias do cachê, sem arte, somente a função: entreter a massa. As baladas, ah, as baladas... Meu nome virou febre nas certidões de nascimento, embalaram também os recomeços, as segundas chances, o cíclico encanto do amor redescoberto, e os cartórios não precisaram ser acionados por um motivo de fim. Ah, as baladas... O povo amou, com todos os clichês das rimas previsíveis que montei, focado apenas no fluxo do suspiro, deixar fluir os sentimentos, sem reflexões, só costumes.

Essas canções que fiz propiciaram emprego a muita gente. Os jornalistas acostumaram-se ao assunto, e venderam revistas, jornais, programas de rádio e tevê com as besteiras que me perguntavam, e que eu sempre respondia com um sorriso largo, acolhedor, e um monte de palavra floreada e desconexa só para forjar um mito intelectual, mas próximo ao povo por eu ter origem pobre. E, porque o povo consumia minhas canções, meu ritmo, meus embalos românticos e minha simpatia estrategicamente forjada, eu passei a ser necessário para elevar a audiência, e cumpri minha função: sempre solícito, de programa em programa, matéria por matéria, parte fundamental no excesso de conteúdo produzido num país novo, carente de ídolos para referendar a sua trajetória, algo que aliviasse sua condição de pasto do mundo.

Agora, quarenta anos depois, cabelos brancos e gorda conta bancária, cansei. Mas a mídia continua a precisar de mim para equilibrar suas contas; onde apareço, os índices aumentam, as vendas crescem, a responsabilidade social é contabilizada. Mas as bandas operárias continuam a me tocar pelo país inteiro, em cada buraco ou bodega, de baile ou de um homem-teclado só. Mas as rádios, estacionadas nos anos 1980, continuam a turbinar seu comercial com os meus hits, que se tornaram o pressuposto cânone nacional, ao lado de mais uns dez colegas, de duas gerações analógicas distintas. Mas o povo, conservador por excelência e essência – condição imutável de nosso fracasso enquanto revolução –, continua a cantar, dançar, chorar e a fazer filhos com toda essa baboseira de caça-palavras e ritmo que produzi enquanto ainda fumava maconha, à beira do mar, só pra comer os bichinhos grilos de saias que trepavam ao primeiro acorde de um violão supostamente combatente ao sistema. Meu sistema vampiro: eu toco, você dá, eu fabulo, você me segue. Tudo continua, mas eu não. Cansei.

Semana passada eu peguei o violão. Fiz um som. Gostei. Gravei em casa, todos os instrumentos, produção e arranjos. A melodia surgiu enquanto folheava um álbum de retratos em preto e branco, que peguei como herança de minha vó. Da melodia, a letra, que não quis ser poesia, e sim biográfica. Dezessete estrofes, nenhum refrão. Título: Eu. Botei a voz, cansada, mas foi a minha voz, a que fala para mim mesmo, ao espelho ou dentro da cabeça, e não aquela que é partícipe da farsa social. Mixei. Masterizei. Fui além: tirei uma selfie, ilustrei no computador, escolhi a fonte e finalizei a capa do single. Imprimi em casa, pus num box que providenciei (descartei algum presente que me deram) e fiquei admirando, mesmo sem ter um CD dentro. Meu. Chamei meu neto e botei a faixa pra tocar no meu estúdio, nas melhores caixas que o mercado poderia ter me vendido. O que ele me disse? O mesmo o que o meu empresário falou. A minha mulher. Os músicos de minha banda. A imprensa. O povo.

– Gênio!

Cansei.

Emmanuel Mirdad, 05 de março de 2015.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Três passagens de Gonçalo M. Tavares em A máquina de Joseph Walser

Gonçalo M. Tavares na Flica 2014, por Egi Santana


"Os períodos em que existe medo são utilizados não apenas para sobreviver: também para as paixões efusivas. Mas se a qualidade de uma geração se mede pela qualidade das frases que quem seduz utiliza, então aquela era, sem dúvida, uma geração medíocre."


"Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições acalmavam, só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte. Repetições de actos ou de pequenos gestos, de palavras ou de frases banais – repetições até de actos não visíveis, não registáveis pelos outros, como imagens e memórias do cérebro –, tudo isso permitia a cada um sobreviver no meio da confusão, resistir no meio do reino da desordem"


"Você é de uma eternidade espantosa, é uma cópia perfeita, neste lado, daquilo a que vulgarmente se chama sábio."


Presente em A máquina de Joseph Walser (Companhia das Letras/2010), 
páginas 106, 108 e 49, respectivamente.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Site Emmanuel Mirdad



Está no ar o meu site!

Webdesigner de Bruno Senna, programação e sistema de Allie Poldermans, conteúdo e design meus.

Acesse: mirdad.com.br