terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O angolano e o pós-guerra em Os transparentes, de Ondjaki

Ondjaki na Flica 2014 - foto: Egi Santana


"(...) todos os angolanos tinham alguma paranoia com armas ou armamentos, todos tinham um estória para contar que envolvia uma arma, uma pistola, uma granada ou pelo menos uma boa estória que envolvesse um tiro, ou uma rajada de tiros, alguns tinham cicatrizes no corpo, outros atribuíam a cicatrizes várias os impressionantes episódios que efabulavam por força de necessitarem deles,


um modo, digamos assim, coletivo de vivenciar a guerra e os seus episódios, os combates e as suas consequências, mesmo que fosse de ter ouvido falar, ou de se ter escutado na rádio, antigamente, nos dias em que a guerra de facto havia sido um elemento cruel mas banal da realidade e, ainda hoje, dissociar a guerra do quotidiano era quase um pecado


e de arma em arma, de tiro em tiro, de conversa violenta em brutal descrição, o fantasma da guerra circulava livre - em cada canto de Angola, nalgum momento, ainda que fosse nos primeiros instantes das manhãs mais limpas, alguém estaria disposto a sacrificar o seu silêncio para falar, mesmo que implicitamente, de uma qualquer guerra, a sua ou a do vizinho, da sua família ou do enteado que viera de uma província mais sofrida, injetando nos casamentos, nos funerais, nas horas de trabalho, nas danças, nas artes e até no amor, uma quase inata perícia de falar sobre esse monstruoso assunto como quem, suavemente, e sem medo, afagasse o dorso de um monstro raivoso e atormentado por uma falsa paz em aparência de exaustão


assim, no modo de agir, de reagir, de receber os outros e de ir lá fora contar em muitos termos a ferida nacional, o angolano investia grande parte de sua imaginação em lembranças que o mais das vezes não eram suas, ou projetando no passado o que poderia ter acontecido, ou fazendo claríssimas alusões a um futuro que por sorte não aconteceria e, bem revistas as coisas, afinal, em se tratando de tamanha cicatriz social, a verdade é que qualquer um, sem pedir autorização aos demais, podia de facto recorrer à chave mágica da palavra para abrir o gigantesco cofre onde o monstro decidira viver"


Os transparentes (Companhia das Letras/2013), de Ondjaki, páginas 193 a 195.

domingo, 25 de janeiro de 2015

O amor incondicional de Monique e Leandro, casados

Casamento de Monique e Leandro (foto: Mirdad)


O amor é raro. Acontece, e não dá pra medir, comparar ou quantificar. Quem ama, não ama mais que o outro. Os dois amam, na mesma sintonia, que traz paz ao abraço de lar, aconchego ao segurar as mãos em conforto pelo encontro, afeto ao expôr a gratidão evidente por estar junto, sem condicionantes. Os dois amam, na mesma vibração, gozando o sublime pelo encaixe harmônico e feroz dos corpos - sem o erro infantil de provar uma perfomance -, beijando com o querer ampliado pela profundidade dos lábios a degustar o sabor da pele que nos complementa e amplia, bailando os passos que nos combina como um só ingênuo a fluir a dança de Maya, todos os divinos seres que transcendem ao sorrir, deslizar, fruir e intuir.

O amor, raro, é o incondicional. É o mais próximo que podemos materializar do que é divino, astral, positivo, do bem. E, entre tantas figurações nocivas do que é o afeto, ser um casal, amar, nesses dias tão difíceis de egoísmo e ostentação, tive a honra e o prazer incrível de vivenciar a bela cerimônia (que evidenciou o amor, o raro, ao nosso pequeno universo de seres) do casamento de Leandro Pessoa e Monique Meirelles, duas pessoas do bem e do bom, que se amam, incondicionalmente. Viva o amor! Longa vida ao casal! E que seja nosso farol a iluminar a esperança de ter a sorte de um encontro com o amor. O raro. Incondicional.

Casamento de Monique & Leandro
25 de janeiro de 2015
Texto e foto: Emmanuel Mirdad

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Crônitos #01 - Selvagem

Ilustração de Marceleza de Castilho - daqui


Selvagem

Fui surpreendido por uma cascuda na cozinha. Tasquei-lhe a vassoura. Nada. Ficou de casco pra baixo, tentando se virar, pra fugir de mim. Banquei o sádico e fiz a experiência de banhar a barata gigante numa poça de Qboa. O inseto fervilhou, vibrando todas as patas e antenas em agonia. A compaixão fez uma alusão imediata: deve tá queimando como os X9 em pneus. Fiquei com remorso e, relembrando a honra dos antepassados, decapitei o bicho com o fundo de uma garrafa vazia de água mineral de 1,5l da Schin.

Satisfeito com o fim justo do meu inimigo que nada fez (maldito clichê de ter de exterminar baratas – uma obrigação absurda, infundada no pânico de que, se ficar viva, dará origem a centenas de outras baratas), fui tomar água, do filtro. A surpresa veio a seguir: bem antes do que o tempo ficcionado pela série Walking Dead, a “cabeça” e as antenas do invencível inseto voltaram à vida, contorcendo-se violentamente, tentando escapar da poça de cloro, criada pelo sadismo deste macaco maldito que sou.

Impressionado pela cena kitsch, notei que o “corpo” da barata estava morto, mas a sua “cabeça” não. Voltei à arma e, mais uma vez com o seu fundo, esmaguei o resto de meu bravo oponente. Cinco segundos depois, ele voltou a se mexer. Esmaguei-o, de novo. Mais uns poucos segundos, voltou a se mexer, de novo – freneticamente, a fim de sair da poça de cloro. Então, esperei. Quando o inquebrável resto da barata conseguiu o alívio do chão frio de lajota, levantei-o pela antena e pensei em comê-lo. Talvez devorando o oponente eu teria semelhante força. E resiliência.

Basta! Como um moleque, cansei rapidamente dessa grotesca experiência ancestral, selvageria. Protegido pelo papel higiênico – glória da civilização –, esmaguei, melhor, triturei – com todos os dez dedos – o que restava da barata, embolando-a num sepulcro sustentável. Atirei o bolo no lixo, nauseabundo. No dia seguinte, pela manhã, juro que vi uma perninha balançando no “corpo” decapitado da barata, enquanto formigas tentavam desmontar os pedaços de seu próximo banquete.

Emmanuel Mirdad, 22 e 23 de janeiro de 2015.