segunda-feira, 2 de maio de 2016

Oito passagens de Aníbal Machado no livro Melhores contos

Aníbal Machado (foto daqui)


"Monjolo se anunciava por um som de sanfona que parecia o gemido constante do fundo do Brasil."


"Com os trinta e seis anos perdidos na Repartição, teria perdido também o dom de viver? (...) Muito próximo se achava ainda desse passado para não lhe receber a influência. A manifestação de despedida fora ontem mesmo. Cobriram-lhe a mesa de flores; saudou-o em nome dos chefes de serviço o diretor mais antigo, seu ex-adversário; falou depois um dos subordinados, estudante de Medicina; por último, uma funcionária, a Adélia, que usava decote largo, se referiu ‘à competência e exemplar austeridade do querido chefe de quem todos se lembrarão com saudade’. Uma menina, filha do arquivista, fez-lhe entrega de uma bengala de castão de ouro, com a data e o nome. E o Ministro mandou um telegrama. (...) Foi só. Estava encerrada a etapa principal e maior de sua vida. (...) Os decênios de trabalho monótono, de ‘austeridade exemplar’ como dizia Adélia, forjaram-lhe uma máscara fria. Atrás dela se escondeu e de si mesmo se perdera. Como fazer desaparecer-lhe os vestígios? Como se reencontrar? (...) Adélia não podia imaginar o que para ele representava a ‘exemplar austeridade’. Adélia jamais saberá o que ocorria na alma do antigo chefe quando os olhos deste passavam como um relâmpago pelo colo branco de sua subordinada; talvez nem ela pressentisse. Austero coisa nenhuma: desajeitado apenas, tímido: gostaria de poder fazer o que censurava nos outros."


"Senhor Juiz, sou engenheiro construtor de pontes. Procuro viver de coisas positivas e, tanto quanto possível, explicáveis. Não cultivo a atração do abismo. E o absurdo me aborrece. Se de meus pais herdei certa tendência para o sonho, eles próprios me preveniam contra as ciladas da imaginação. Também não sou amador de fatos estranhos da vida, posto que sempre aconteçam. Já disse que sou engenheiro e construtor de pontes. Sr. Juiz, há cerca de três meses desembarquei nesta cidade em busca de repouso. Estava esgotado, precisava refazer as forças. Desde criança, ouvira dizer que aqui ventava muito. E o nome deste lugar ficara-me na memória ligado à ideia de vento, como o de outros lugares à ideia de crime ou de tranquilidade colonial."


"Mais do que nunca, sentiu José Maria naquela noite a solidão da casa. Não tinha amigos, não tinha mulher nem amante. E já lera todos os jornais. Havia o telefone, é verdade. Mas ninguém chamava. Lembrava-se que certa vez, há uns quinze anos, aquela fria coisa, pendurada e morta, se aquecera à voz de uma mulher desconhecida. A máquina que apenas servia para recados ao armazém e informações do Ministério, transformara-se então em instrumento de música: adquirira alma, cantava quase. De repente, sem motivo, a voz emudecera. E o aparelho voltou a ser na parede do corredor a aranha de metal, sempre calada. O sussurro da vida, o sangue de suas paixões passavam longe do telefone de Zé Maria... (...) Como vencer a noite que mal começava? (...) Fechou o rádio com desespero, virou dois tragos de vinho do Porto, deitou-se. (...) O telefone toca. Quem será? Quem se lembraria dele? Algum convite? Trote? (...) – Alô, meu bem! (...) – Alô! Aqui fala José Maria. (...) – É engano, proferiu secamente a interlocutora. (...) Era engano! Antes não o fosse. A quem estaria destinada aquela voz carregada de ternura? Preferia que dissesse desaforos, que o xingasse."


"Lá fora o vento guaiava. Era agora um vento de tipo retórico e banal, o que ocorre em toda parte sem a menor afinidade com o outro, que era todo malícia, mocidade, fecundação. A discriminação gratuita entre as duas famílias de vento prendia-se no espírito do engenheiro às impressões deprimentes da chegada. Vestido como estava, dormiu. (...) Acordou antes da cidade. Abriu a janela. No lusco-fusco da madrugada, a cidadezinha era um amontoado triste de casas. Despertada dentro de algumas horas, ela começaria a desprender seus venenos, faria andar seu aparelho de compressão."


"Embora sede de comarca, era tão pequena a cidade que um grito ou gargalhada forte a atravessavam de ponta a ponta. Assim, não seria exagero supor que toda a população se achava reunida ali, àquela hora. (...) Os moleques tinham combinado uma vaia com busca-pés que o perseguisse durante o trajeto até o Hotel. Maltrapilhos e abandonados, brigavam sempre entre si, mas o fato de ter sido um deles a vítima, unia-os agora no ódio comum ao engenheiro. Disso tirou partido o próprio escrivão do crime com uma parcialidade que a população aplaudia, e que o juiz da Comarca, severo, mas sempre alto e distante no desempenho de suas funções, ignorava. (...) De tal juiz se dizia que era bom demais para aquele burgo. Seu vulto, seu saber e dignidade moral, suas nobres maneiras estavam a indicar-lhe o aproveitamento nalgum Tribunal superior, a que presidisse com beca romana e frases latinas. Nunca porém o quiseram elevar àquelas cumeadas. Sempre elogios, jamais a promoção. A política negava justiça a quem melhor a distribuía. Era voz geral que, desgostoso, pedira contagem de tempo para aposentadoria."


"O que mais o espantara no gesto de Duília – recordava-se José Maria durante a insônia, agarrando-se ao travesseiro – foi a gratuidade inexplicável e a absurda pureza. Ela era moça recatada, ele um rapazinho tímido; apenas se namoravam de longe. Mal se conheciam. A procissão subia à ladeira, o canto místico perdia-se no céu de estrelas. De repente, o séquito parou para que as virgens avançassem, e na penumbra de uma árvore, ela dá com o olhar dele fixo em seu colo, parece que teve pena e com simplicidade, abrindo a blusa, lhe disse: – Quer ver? – Ele quase morre de êxtase. Pálidos, ambos, ela ainda repete: – Quer ver mais? – E mostra-lhe o outro seio branco, branco... E fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando... (...) Só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade. Apenas uma vez, depois do acontecimento, avistara Duília. A moça se esquivara. Mas o que ela havia feito estava feito, e era um alumbramento."


"(...) Não pode ser crime dividir com quem quer que seja um entusiasmo maior pela chuva, pelo fogo ou pelas plantas..."






Presentes no livro Melhores contos (Global, 2001), páginas 66, 50-51, 28, 52-53, 22-23, 16 a 18, 62 e 44, respectivamente.




Seleta dos contos

01) Viagem aos seios de Duília
02) O telegrama de Ataxerxes
03) O iniciado do vento
04) Acontecimento em Vila Feliz
05) O defunto inaugural
06) O piano

domingo, 17 de abril de 2016

Seis passagens de Otto Lara Resende no livro As pompas do mundo

Otto Lara Resende (foto daqui)


"— Como é mesmo que eu durmo? — queria saber qual a posição que habitualmente tomava para dormir. A postura que usava no sono, insabida. Probleminha idiota, mas que o desorganizava mentalmente e súbito o lançava numa aflita perplexidade física. Deste lado: não era. Virou-se do outro lado: também não era. Estendeu as costas: as mãos sobravam, os braços não se incorporavam à rotina. Como distribuir o corpo na cama? Cruzou os braços no peito e sentiu-se estranho, ridículo. Cruzou as mãos e pareceu sinistro, fúnebre. Era como se antecipasse o defunto que não queria ser. Angustiante ideia da morte. (...) Ajeitou o travesseiro, a cabeça alta demais. Afastou o travesseiro e enfiou a cara no colchão como se procurasse com alívio uma forma de sufocação. Insustentável, esticou as pernas e dividiu-se em dois. Recolheu as pernas, dobrou os joelhos, mas ainda assim não conseguiu retomar a naturalidade. Buscava um ponto de equilíbrio e não o achava. (...) De barriga para baixo, a cabeça sobrava, pesava, descomprometida. Não era assim. Nunca foi assim. E o tempo passava, o sono não vinha. Sentado na cama, passou a mão pelos cabelos ralos e procurou controlar-se. Que é que estava acontecendo? Ansiedade sem sentido, tolice. (...) Tinha a sua graça. Um cidadão morto de sono esquecer como é que costuma dormir. (...) Num princípio de tonteira, a cabeça cresceu de volume e desprendeu-se do corpo, que agora lhe parecia estranho, como se não fosse dele. (...) Enfiou as mãos entre os joelhos, enroscado em si mesmo, fetal. Suportou aquela disciplina por alguns minutos, resistindo ao desejo de se levantar, fugir da cama, do sono, de si mesmo. Vontade de esquecer-se, abandonar o próprio corpo, com que já não se sentia solidário. (...) Não reencontrava a perdida intimidade consigo mesmo. Não sabia mais deitar-se e dormir. (...) Deflagrada, a insônia recusava-se a apagar dentro dele a sua luz amarela. Desejo de absorver-se, reorganizar-se, pedaço por pedaço. Membro por membro. Reintegrar-se. Esquecer-se para dormir. Recostado contra o travesseiro, meio sentado, a noite tinha ancorado para sempre num porto de fadiga e torpor. Noite longa, lenta, oleosa, de silêncio e vácuo."


"Uma família não é apenas uma certa cor de olhos, um tom de voz que passa de pessoa a pessoa. Um ríctus de boca orgulhosa, um jeito de sorrir ou de andar. Não é só um silêncio partilhado, nem uma forma de, se amando, magoar-se. Não é um punhado de amarelecidos retratos no fundo do baú, algumas receitas de doces, uma velha cômoda ou um fino colar. Não é um camafeu avoengo ou uma medalha de lavor. Desbotadas lembranças ou uma devoção fiel a Nossa Senhora das Dores. Não são somente os nomes, os enredos e os casos a repetir-se. Uma família reclama um testemunho, um documento, uma prova. Um bem de família, ao menos um, íntimo perfume que se distingue de todos os demais perfumes do mundo."


"Zequinha, seu natural era estar doente, rotina. Ficava horas sozinho, no recolhimento do quarto, obediente, caladinho. O quarto cheirava a menino doente, a poção feita fiado na farmácia, a lençol que só vai ser mudado sábado que vem, mesmo que uma vez ou outra, distraído, sonhando, ele mije quentinho na cama de madrugada. O pijama cheirava a corpo de menino doente — ou era o menino que cheirava a pijama suado? O catre estalava. (...) — Papai — aventurava, cabeçudo, enfezado, finos gambitos, bracinhos com as veias azulando em cima dos ossos, as costelas aparecendo. Dava dó. O pai olhava-o com pena, quase asco. Raio de guri que parou no tempo, não espichava. Não ajudava. Um traste. Tralha. (...) — O número da minha febre é mais bonito do que — e parou, olhou o pai severo, tristonho, com os bigodes pretos que pesavam. Acabou não perguntando ao pai, que mais uma vez viajou, sumiu. Até que um dia sumiu de vez, para sempre. E Zequinha nunca tirou a limpo se o número da sua febre era mais bonito do que o número da febre do Canhoto."


"A mãe do Tibúrcio, consta que foi uma sá Rita do Pau d’Angola, mulher de barba e sem coração, com ruindades que ninguém viu iguais no peito de uma filha de Eva. Já madurona, essa sá Rita virou o juízo e começou a enxergar umas chicotadas de fogo na parede de sua casa. Apesar de solteira, mal se deitava, ouvia um arfar a seu lado, em riba do colchão, como se um companheiro invisível compartilhasse o seu leito. Foi assim, sem marido, que sá Rita do Pau d’Angola emprenhou. Trouxe o peso da gravidez na barriga só por seis meses. E morreu no parto. Daí dizerem que Tibúrcio é filho do Belzebu. Nasceu antes do tempo porque tinha pressa de vir neste mundo cumprir a sina de amealhar à custa de seus semelhantes. Se é que alguém se assemelha a esse filho do enxofre, concebido, parido e criado de forma que dá tanto o que pensar."


"Na chegada como na saída, o Doutor Gervásio pacientemente lavou as mãos na pia com sabão de coco e muita espuma — esfregava uma mão na outra como se quisesse modelar a água. E em silêncio sério receitou a poção, que no mesmo dia veio da farmácia Nossa Senhora dos Remédios: um frasco com rótulo, chapeuzinho de papel de seda frisado, preso com barbante em torno do gargalo, rolha de cortiça novinha — e o gosto açucarado, pra disfarçar o amargo que curava. Tinha de ser ruim de gosto pra ser bom pra saúde. Na vida, desconfiava, tudo para ser bom tinha primeiro de ser ruim."


"(...) Era penoso viver com saúde naquela casa doente. As vasilhas tinham de ser esterilizadas com cuidado. Um saco de água quente não bastava. Eram necessários dois e três, que se alternavam. Mamãe reclama silêncio, tinha o ouvido apurado para qualquer barulho. Não podia ouvir vozes nem passos. O leiteiro evitava de madrugada tilintar as garrafas na nossa porta. O padeiro não se anunciava com voz cantante por cima do portãozinho. Mamãe estava doente. O ar viciado, era preciso evitar as correntes e os golpes de ar. As tias queimavam essências pelos cantos, fumigações. A casa cheirava a eucalipto e a incenso, tal câmara ardente. Mamãe estava doente. Ao aproximar-se da nossa casa, todo mundo policiava os pés, controlava os movimentos bruscos, prendia a respiração e, com ar compungido, exprimia solidariedade e comiseração."





Presentes no livro de contos As pompas do mundo
(Rocco, 1975), páginas 30-31-32-33, 12, 41 e 43,
118-119, 45 e 90, respectivamente.





Seleta dos contos

01) O elo partido
02) Viva la Patria
03) Bem de família
04) Mater dolorosa
05) O guarda do anjo
06) A cilada

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Crítica do livro O grito do mar na noite no jornal Rascunho

Jornal Rascunho #192, pg. 16, Abr. 2016


Salve a imagem acima e amplie para ler. Assim que estiver disponível o PDF da edição, o link será disponibilizado neste post.

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