sexta-feira, 27 de março de 2015

Crônitos #10

Nas terras do município de Nova Viçosa, extremo sul da Bahia, no Brasil. 
Imagem do Google Street View aqui

Fraseando
| Gostar de gente |

“Quanto mais conheço o ser humano, mais gosto do meu cachorro”.

Joana acaba de ver a postagem de sua amiga surfista, dona de um labrador, que sempre está muito feliz nas fotos que expõe no Facebook. Inclusive, a imagem que ilustra o texto foi registrada na areia da praia, dia de sol fumegante e de um azul de estalar as retinas, e o cachorro parece sorrir, com a língua de fora, descansando de algum pique que fez na orla junto à dona esportista e saudável, fisicamente.

A historiadora quer fustigar. Imediatamente produz um novo post, em seu feed ácido e oportunista, em que reproduz a frase e complementa: “(...) – Hoje repensei este clichê, que nunca foi meu, e cheguei à conclusão de que a melhor revisão seria: EXTRA! Quanto mais conheço o ser humano, gosto menos de mim”.

Sim, ela não publicou nenhuma imagem pra ilustrar o post.

Emmanuel Mirdad, entre 2011 e 2015.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Perdi o meu mestre Hélio Pólvora

Com o mestre na Bienal em 2013. Foto: Edmilia Barros


Meu mestre, um gênio, um intelectual primoroso, um escritor de estilo único, um homem refinado, uma biblioteca de extensos volumes, o grande e hábil escultor do conto, Hélio Pólvora, faleceu hoje de madrugada. Luz, saudades extremas!

A última vez que estive com o mestre, junto com o amigo e também mestre Mayrant Gallo, foi em janeiro passado. Conversamos sobre literatura e cinema, e lhe mostrei a boneca do meu livro O grito do mar na noite, dedicado a ele. Não deu tempo pra lê-lo, mas ele ficou contente com a singela homenagem. Pois a sua obra permanece, e as boas lembranças também. E não há um dia sequer em que eu não revise meu trabalho com a sua esfinge ao meu lado me dizendo: melhora isso aí, Mirdad! - algo que a sua honradez nunca fez com palavras. Mayrant escreveu um belo texto em seu blog relembrando o encontro, leia aqui

De toda a obra do mestre Hélio Pólvora que li, o trecho abaixo é o que mais me impactou, retirado do conto Mar de Azov, que dá nome ao premiado livro lançado em 1986:

"O mar é um animal gigantesco que arqueia o dorso, rouqueja e bufa, rosna e geme ao seu lado, a seus pés. As ondas erguem-se a poucos metros em forma de vagas, cavalgadas por manchas de espuma que não tardam a quebrar — e ele tem a impressão de correr à beira de um túmulo líquido que poderá levantar-se de repente em forma de muralha e sepultá-lo."

Hélio Pólvora eterno! Leia a pílulas que selecionei de sua sensacional coleção de livro de contos aqui.

Saudade enorme, descanse em paz, grande mestre da cultura!

E, dos mestres que tenho, só me restou o amigo Mayrant Gallo, depois de perder Ildegardo Rosa, meu pai, André Setaro e Hélio Pólvora.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Gonçalo M. Tavares e a morte

Gonçalo M. Tavares na Flica, por Egi Santana


"O que existia era, sim, a manifestação de uma eficácia impressionante por parte daquele mecanismo a que chamamos enterro. Cada pessoa que chorava, e algumas tinham sido vistas a baixar a cabeça, chorava não pelo morto mas pelo ruído que as rodas daquele mecanismo libertavam. Havia, tanto nas palavras religiosas quanto nos gestos quase universais dos soldados a baixarem o caixão em direcção à terra, a fixação num ponto que era comum e não já individual. Esse ponto que unia a comunidade dos presentes era a sensação de que cada um deles poderia, no dia seguinte, ser o morto que os outros homens respeitam. Chorava-se em conjunto pelo fracasso da cidade: ainda não se encontrara antídoto para aquele ruído que parecia ser libertado em cada enterro. Cada homem reivindicava que a morte – e o seu sistema de funcionamento – terminasse antes de chegar a si. E em cada funeral a despedida do morto era também o relembrar de um fracasso comum, de um fracasso, inclusive, da mais alta referência dos humanos: a sua cultura, a sua forma de raciocinar que construíra um novo mundo e que quase tornara o perigo, em tempo de paz, uma energia não normal, extraordinária mesmo. De facto, nas cidades sem guerra, o perigo tornara-se raro, mas a morte, essa, continuava abundante; parecia impossível ao homem dominar o seu preço: este continuava baixo, acessível, igual ao de qualquer produto insignificante. A morte, cada morte individual, manifestava o fracasso económico, técnico e cultural das cidades."


Presente em Aprender a rezar na era da técnica
(Companhia das Letras/2008), pgs. 86 e 87.

PS: A grafia está em português de Portugal, por opção da editora.